Os prédios que viram do ar faziam a curva da baía parecer como outras. A casa da Paulina está ali em baixo, algures, num sítio que mais tarde descobrirão, e a partir do qual tentarão adivinhar a rota do avião que as levará de volta ao outro hemisfério. Há uma claridade amarelada, a "famosa" luz de África não surpreende. Estava o mesmo calor da terra das moças. A humidade pouco mais ou menos. O sol mais pálido. Os passageiros arrastaram a bagagem de mão em excesso, percorrendo a pé a distância entre o avião e a gare que se impôs em descida rasante sobre as distâncias europeias. A moça 2 acabou por se enfiar no quarto da Sundown, finalmente encontrada. Grande, espaçosa, confortável. Ligou coisas, comeu, lavou-se, dormiu, acordou sobressaltada, batendo com os cotovelos na rede mosquiteira. Mais tarde saiu do quarto para ir buscar uma garrafa de água. Voltou a entrar. Quer sair mas ainda não. Sente desconforto no quarto confortável. Medo dos mosquitos. Vais lá para o fim do mundo, dissera-lhe a mãe. O Maputo é aqui. E o fim do mundo é onde está a sua mãe. No dia do regresso, foi muito o excesso de bagagem de mão. Ao ponto de uma mala não ter chegado. Aconteceu com a mala o que aconteceu com os corações, que também não chegaram como deviam. Ficaram no caminho, com excesso de peso.

As moças não sabiam que iriam comer galinha à zambeziana, xima e matapa no jardim da Paulina. Que a noite iria cair sobre as suas conversas no jardim, acomodando as palavras às àrvores em volta e cristalizando-as na sombra da lua. As moças ficaram ali, a respirar a casa da Paulina, a aprender que existe uma escola perto da casa, que a vida no bairro não é muito sossegada, mas que à noite a Paulina dorme de portas e janelas abertas porque quase nao há perigo. Souberam que não existe posto médico, mas que também não faz mal, porque ali não há urgências. E que há um furo de água que dá de beber às pessoas do bairro. A Paulina bebe 2M. A moça 2 engana-se sempre e diz M2. A casa da Paulina fica longe da cidade, quem quiser vir terá de lutar com a estrada. Como quem entra num livro do Saramago, são a distância, a dificuldade e a velocidade da leitura que coam os visitantes. As moças auto-coadas surgiram dos buracos da estrada e do pó com uns sorrisos largos e nervosos, e vestidas de capulanas j&á passadas por sal. A Paulina tem na gaveta as "Andorinhas". Participou num livro sobre mulheres em Angola. As mulheres do mercado conhecem o "Niketche" e riem-se a falar dele enquanto vendem. Já o "Ventos" foi escrito com o coração, e a Minosse existiu de facto. As moças não sabiam. Que a Paulina não descansou enquanto não encontrou o menino que tinha escrito um poema num quadro a giz. Depois de o localizar trouxe-o consigo e patrocinou a sua educação. Enquanto as moças conversavam, o rapaz que nunca falta às aulas e escreve poemas nos quadros a giz por essa terra adiante, trabalhava no computador da sala como se nada lhe dissesse respeito. D. tem o mesmo sorriso da mãe Paulina, veio para conhecer as visitas-moças e depois foi embora. Já não vive com a mãe, e foi ela quem lhe disse para ir arranjar a casa dele. Agora vêem-se de vez em quando e são bons amigos. Quando a mãe saía à noite com o Nat, os filhos ficavam à porta à espera que a mãe chegasse, e se vinha sozinha era um desacato. O Nat tinha que acompanhá-la sempre. A Paulina vai convidou as moças a virem dançar com ela uma dessas noites. Não foram nessa noite, mas haveriam de ir em breve, não à discoteca dos militares, mas ao Bar dos Amigos. A vida dupla das moças cose-se dia a dia e o Samito tem o seu lugar no xuliado, produzindo vestido atrás de vestido à moça 1, que, radiante com os resultados, vai dando trabalho à D. O e despejando o saleiro lá de casa. A moça 2 quer mandar fazer uma saia comprida mas não sabe se terá tempo. Quando chegar a casa, e mostrar as capulanas à sua mãe, no quarto situado no fim do mundo, perceberá que afinal a saia comprida será feita por outras mãos. Tarde demais.

O Naguib uma vez puxou as orelhas a uma pessoa que não queria terminar a sua pergunta numa conferência. O Malangatana passou de carro perto da rua onde o Naguib cumprimentava as moças, dizendo: Ó Naguib, este jipe é teu? Corrupto! O carro do Malangatana seria apanhado pela máquina fotográfica da moça 2 dias mais tarde, longe dali, após uma almoço repleto de novidades gastronómicas. Mother H avisou: cuidado na casa da esquina. As moças chegaram, apreensivas, mas, uma vez dentro do recinto, o primeiro medo foi sentido em relação aos mosquitos. Era fim de tarde. Quando a moça 2 pegou no telemóvel e ligou para um escritor, a moça 1 pegou no spray anti-mosquitos, pulgas e carraças e pulverizou-se. O escritor 1 apareceu do meio dos mosquitos, tacteando a linha imaginária que ligava os dois telemóveis, mas não picou. Mother H bem que avisou, mas não teria sido necessário. Os mais velhos ficam agora por casa escrevendo discursos de homenagem, fumando coisas legais nas esplanadas e levando pouco a sério as novas gerações que enunciam revistas a que dão o nome dos astros e já não da terra.

O carapau seco faz-se de 365 formas diferentes em Moçambique. Durante o período de escassez alimentar, só se comia carapau seco, repolho e bolacha Estrelinha. A bolacha Estrelinha é produto nacional, vem numa embalagem azul sem abertura fácil, com um super-homem vestido com as cores da bandeira de Moçambique. Embora ainda não o saibam, as moças irão encontrar mais uma pessoa vestida com as cores da bandeira nacional, e não será um super homem, mas uma mulher que tem por hábito dizer que conhece o país como as palmas das mãos. O Nataniel, nesse tempo no exército, trazia caixas de Estrelinha para acompanhar o pouco leite que havia para a sua filha, hoje bebé grande, nessa altura acabada de nascer. Havia dinheiro e não havia o que comprar. Depois, encheu-se tudo de comida de repente. Com os ajustes económicos, acordou-se um dia, e havia comida nas prateleiras das lojas. Disse o Nat. Quando havia escassez de alimentos, a Interfranca tinha um pequeno supermercado e só quem tinha dólares é que podia ir lá fazer compras. A F odeia papaias por causa da escassez de alimentos, durante a qual o seu pai a obrigava a comê-las, na altura a única fruta em abundância. As moças ficaram a saber também que a F afinal tem caracóis, canudos até, que desfriza por causa da sua cara pequena. Assim, desfrizada, diz que parece mais velha. A moça 2 não se lembra de não haver comida para ela ao longo da sua existência, nem de ter caracóis, uma evidência que algumas fotos antigas constatam mas que o seu cabelo liso e sem jeito contesta.

 

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