AM - Em que local do mundo, em que sítio, ao pé de quem é que se sente em casa? 

PC - Sinto-me bem em Moçambique, na minha casa mesmo, porque tenho um quintal muito grande, está cheio de plantas, e ali é onde me sinto “eu”, porque em qualquer outra parte sinto-me emigrante. 

AM - Emigrante? Porque é que se sente emigrante? 

PC - Por exemplo, eu agora trabalho numa outra província, mas... gosto muito, mas não é a minha casa. Viajo bastante, vou para zonas rurais, vou para outros países mas nunca me senti tão bem como quando estou nesse lugar, no meio do subúrbio... 

AM – Esse lugar é em Maputo? 

PC – É, fica no subúrbio da cidade. 

AM – Mas não foi em Maputo que nasceu. 

PC – Não, eu nasci em Gaza e os meus pais emigram qando eu era muito pequena, presumo que tivesse para aí 4, 5 anos. Cresci lá, não tenho assim muitas, muitas ligações, porque pronto, os meus pais sairam, nós saímos, e fixaram-se em Maputo. Mas vou lá de férias, ou quando há eventos especiais. 

AM –As pessoas que estão ao seu redor sabem que escreve, que publica? 

PC – Sim. 

AM - Sente-se acarinhada como escritora no sítio onde vive? 

PC – Olha, foi um processo, nos últimos tempos sim, mas antes não. Era tida como uma pessoa perigosa... Por exemplo, as pessoas estão a beber, a comer, numa algazarra qualquer, e aí chegou a escritora, senão vai-nos escrever, eles ficavam calados a comer, mas agora já não. (risos) 

AM – Não falavam? 

PC – Quer dizer, falavam comigo, mas o ambiente mudava com a minha presença, e isso me incomodava de certa maneira, e eu preferia ausentar-me. Às vezes convidavam-me, “venha, vamos conversar!”, e na minha presença a conversa era fria, então comecei a não participar. Mas agora já passou. 

AM – Como é que encara a escrita hoje, que já escreveu quatro livros, que já publicou, que já foi agraciada com o prémio Craveirinha, como é que escreve agora? Há alguma mudança? 

PC – Eu quando olho para os textos que eu escrevi, eu acho-os assim um pouco adolescentes... 

AM – Os primeiros textos não publicados? 

PC – Não, não, mesmo o primeiro livro. Falemos mesmo do primeiro livro. Eu acho que o primeiro livro tinha algumas imaturidades. É por isso que eu acho que é um livro adolescente, e o tipo de assuntos que abordo hoje não abordei antes. Por exemplo, o quarto livro é um livro atrevido, o Niketche, já vem de uma experiência, de um percurso e de alguma maturidade, porque se eu fosse mais jovem talvez não dissesse as coisas que eu disse, mas agora eu sinto-me adulta e acho que criei o meu espaço de liberdade e é por isso que abordei as coisas assim, com mais frontalidade. 

AM – Tinha quantos anos quando escreveu a Balada de Amor ao Vento? 

PC – Ah, já era uma mulher adulta, editei acho que com 35 anos. 

AM – Editou primeiro em Moçambique... 

PC – Primeiro em Moçambique. 

AM – Qual era a editora? 

PC – A Associação de Escritores, que na altura funcionava como única editora, que não havia outra. 

AM – Que editora é que há em Moçambique agora? 

PC – Agora temos a Ndjira, que é uma vertente da Caminho, temos a Imprensa Universitária, temos a Imprensa Nacional, não, não, Minerva Central. Aliás, a Minerva Central sempre existiu, mas não sei porquê, não... acho que a Minerva publica ainda, assim uma espécie de livros estéticos e não ficção. Agora, livros assim de ficção, de poesia, isso primeiro foi a Associação de escritores, depois a Ndjira, a Imprensa Universitária e... há mais uma ou mais duas, privadas, que vão dando vazão à.... mas estão todas baseadas em Maputo. 

AM – Os livros da Paulina são publicados pela Caminho. Estão a ser publicados em Moçambique também? 

PC – Uhm... A Balada e Ventos do Apocalipse foram primeiro publicados em Moçambique. Mas as coisas mudam a partir do momento em que começo a tomar contacto com a Caminho. O Sétimo Juramento já foi publicado primeiro em Portugal e Niketche foi publicado primeiro em Portugal. 

AM – Como é que foi esse contacto com a Caminho? Como é que surgiu a oportunidade? 

PC – Houve vários intervenientes, entre eles, a doutora Inocência Mata, mas primeiro as coisas acontecem em Moçambique. A minha tradução para o estrangeiro começa com a língua alemã. E o livro ficou exposto na feira internacional de Frankfurt. E é lá onde eu conheco o doutor Zeferino e ele começa-se a interessar pelo meu trabalho. Mas ele na altura, acho que eu já tinha dois.. não, só tinha dois livros escritos, e ele não sabia muito bem quem eu era, o que fazia, e é quando entra a Doutora Inocência Mata, que sugere qual dos livros poderia ser o primeiro, e as coisas começam assim. Mas... comecei primeiro pela Alemanha. 

AM – Queria voltar ao prémio José Craveirinha que ganhou em 2003, que partilhou com o Mia Couto, como é que foi? Quem é que lhe disse que tinha sido escolhida? 

PC – Não sei, foi um telefonema do secretário geral da Associação dos Escritores, porque na altura eu já trabalhava na Zambésia, e ele disse “Não, tens que vir a Maputo, parece que há um prémio aqui”, e eu disse, não, eu não vou sair agora do meu trabalho para vir a Maputo só porque tu achas que deve haver algum prémio. E então, dias depois eu recebo a confirmação de que tinha recebido o prémio e eu lá fui e recebi, e pronto. 

AM – Como é que nasce a escrita dentro de si actualmente? Tem algum ritual de escrita? Escreve à noite? Eu sei que trabalha muito, que tem uma família, filhos, as panelas... 

PC – (risos) Ah claro, isso não me falta. Para uma mulher, isso... 

AM – Como é que escreve neste contexto? 

PC – Olha, é assim, normalmente, eu escrevo de uma forma mais tranquila ao fim de semana, sexta feira à noite. Chego a casa, arrumo as minhas pequenas coisas, e deixo que todos durmam, a partir das 22 horas, 23 horas, e sento-me no computador, começo a trabalhar... 

AM – Escreve no computador? 

PC – Sim, mas... no computador. Mas... no computador o processo, o resto... não é a altura da escrita, porque... ao longo da semana eu vou trabalhar e nos intervalos do trabalho, assim, de repente eu me lembro de alguma coisa, vou fazendo anotações, porque se me ponho a trabalhar no livro no meio da semana, corro o risco de não ir trabalhar no dia seguinte... às vezes esqueço o relógio, às vezes acho que vou esticar um bocadinho mais o trabalho e quando dou por mim são 2 horas da manhã, 3 horas da manhã e fica tudo muito complicado. Então o que eu faço ao longo da semana, quando posso, vou tomando umas notas aqui e ali, à medida que vou-me lembrando das coisas, e sexta feira é o dia em que eu começo efectivamente a trabalhar. Às vezes trabalho até às 4 da manhã, às 3 da manhã, faço tudo para rentabilizar o tempo, porque sei que no dia seguinte posso acordar às 9, 10, 11, portanto de manhã já não tenho que ir trabalhar, mas os fins de semana são dedicados à escrita. São raras as vezes que eu saio para algum lazer, realmente tenho pouco tempo, e se eu saio de casa é porque é um baptizado, um casamento, ou uma cerimónia social, enfim, um evento social é importante, mas sair para ver o sol a nascer, ou para ver o por do sol, relaxar na praia é muito raro. O meu tempo é mesmo curto. Pronto, agora, ritual mesmo, eu diria o seguinte, eu gosto de escrever no mesmo lugar. 

AM - Sempre no mesmo lugar? 

PC - Gosto de fazer isso. Nem sempre é possível, mas o lugar para mim é importante. Gosto daquela sala, enfim, a geografia do quarto ou do lugar onde eu trabalho, gosto que ela seja sempre a mesma. Depois tenho a música. 

AM - Escreve com música? 

PC – Ya... Mas, é tão engraçado, a tal música... Eu sou capaz de ouvir a mesma música. Pronto, é uma música que apela à minha inspiração, ao meu estado psicológico e quando eu mudo de música, normalmente... normalmente não... sim, mas é isso mesmo... se eu mudo de música imediatamente eu sou capaz de mudar de imagens que tenho na mente, então, concentro-me, sou capaz de ouvir a mesma música a noite inteira, programo o rádio, termina, começa, termina, começa, sempre assim, até acabar o trabalho. E os meus filhos zangam-se muito comigo... 

AM – (risos) 

PC – porque dizem, ó mãe... a mesma música! (risos) Mas pronto, é o que dá para se poder trabalhar. Mas também as noites normalmente são muito silenciosas, e eu preciso de algo que faça de contas que existe uma outra voz, existe uma outra vida, é uma espécie de companhia.... 

AM – Que quebre o silêncio.... 

PC – Ya, quebrar o silêncio, mas também não é quebrar o silêncio no sentido de perturbar a minha forma de pensamento, ah isso não! 

AM - Que tipo de... que música é que ouve? 

PC – (risos) Olha, eu gosto de música de raiz bantu. Por exemplo, há sons que estão ligados, sons culturais ligados à minha terra, à minha infância. Há uma música aqui... acho que.. é tão engraçada.... (liga o computador) tenho aqui algumas no computador... Há uma música de Cesária Évora que eu... fiquei a ouvir durante uma semana porque apetecia-me escrever e o pensamento fluia quando eu ouvia essa música.... Pronto, então era essa, durante uma semana (risos). Depois na semana seguinte mudo de música, mas eu nunca fui assim uma pessoa de ouvir música deste, daquele, daqueloutro quando estou a trabalhar. Tem que ser assim uma música suave, mas de preferência de raiz Bantu. Agora, existem músicas estrangeiras que acompanham o meu trabalho... por exemplo, consigo trabalhar muito bem com Ray Charles, consigo trabalhar muito bem com... como se chama, com os Bee Gees, porque eles têm assim uma linha melódica muito suave, mas também selecciono porque não são todas as músicas que me servem. Mas não é nada do outro mundo. ... Óh mãe, a mesma música! Quem é que vos mandou ouvir? (risos) Vão para o vosso quarto e escutem as vossas músicas. 

AM – Os seus filhos costumam meter-se na sua escrita? Eles fazem perguntas? 

PC – Não, geralmente não... Mas o meu filho zanga-se muito porque de vez em quando o computador parou e eu tenho um trabalho por acabar e lá vou despertá-lo de madrugada: O meu computador! (risos) Oh mãe, deixa-me dormir! 

AM – A minha mãe é tal e qual com o meu irmão (risos) 

PC – Pois é... mas os filhos são para isso, reclamam mas vão. 

AM – É verdade. Então não discute a sua escrita com ninguém. É só pensar sobre as coisas e escrever... 

PC – Com a minha filha discuto um pouco mais, não muitas vezes, mas algumas vezes consigo discutir algumas coisas com ela... e depois pergunto... o que é que tu achas... ela as vezes fica assim a olhar para mim, fecha um olho, oh mãe, (risos) dá-me lá esse texto, porque é que a mãe não acaba e depois eu leio? Mas com ela discuto mais as coisas que eu escrevo, e peço-lhe sugestões de vez em quando, o que é que tu achas disto, o que é que tu achas daquilo, mas com o meu filho nem tanto, o meu filho gosta mais de mexer nas máquinas, ò mãe, quando esse computador avariar chama-me que eu resolvo (risos, mexe no computador) ... Madonna é uma, é uma, não oiço muito a Madonna, mas de vez em quando tem uma coisa e outra... É muito bonita esta música, embora... 
(?Cesária Évora?) 
AM – De quem é esta? 

PC – É da Cesária Évora, ....... são músicas que eu consigo ouvir, não são propriamente da África austral, são da África ocidental, consigo ouvir e consigo trabalhar com eles, mas os outros sons, não sei o que é que tem. Há um cantor africano bom, mas não consigo ouvir, mas com ele não consigo pensar. Mas este tema eu consigo ouvir tranquilamente.... Deve ter já ouvido, não? 

AM – Eu não conheço... 

PC – É um tema muito bonito este.... (risos) É um dos temas mais famosos em África... e é um disco bem caro. Ya... há aqui uma outra música... Esta é da áfrica ocidental, das poucas que consigo ouvir, mas por exemplo gosto muito desta.... esta é uma música típica de Moçambique, é um som típico... e... à medida que os sons correm vêm as imagens os lugares, etc... 

AM – Deve ser fantástico sentir as imagens a chegar e... depois transformá-las em escrita... 

PC – É doloroso! Ya... gosto muito desta música. 

AM – É de quem esta? 

PC – Uhm... Como é que se chama? O grupo de senhoras chama-se Macanane. São três mulheres. Mas realmente, não são propriamente de Moçambique, mas elas estão na fronteira, portanto, são da província de Gaza que está dividida ao meio, tem parte de Moçambique e outra parte da África do Sul, então estão aqui numa área meio indefinida, mas estão mais para o lado da áfrica do Sul... Então... vou ouvindo assim. É uma música que é uma homenagem a uma cantora que morreu e eu gostava muito da dança dela, não propriamente da música dela, uma coisa que eu ouvia.... 

AM - A música é uma parte muito importante da sua vida? 

PC – É. Eu acho que se começasse cedo a cantar, se tivesse boa voz... 

AM – Tem boa voz? 

PC –Ah, não tenho, não. Ah, não. Eu acho que seria uma grande cantora. Ou se tivesse ter começado a desenvolver desde muito cedo a arte de cantora, poderia ter sido uma grande compositora. 

AM – Já compôs alguma música? 

PC – Ah, quando era miuda, na escola de música. Era uma coisa interessante, mas.... mas não há que ter tristeza. Agora não sei, já se perderam... Aqui há uma mistura de coisas... os meus filhos também metem das suas aqui... A música da Madonna... Mas é tudo uma música assim muito suave, isto dá pra dormir, pra embalar, eu vou escrevendo.... Conhece esta da Madonna? 

AM – Acho que sim... Gostei muito da primeira. 

PC – É. 

AM – Paulina, como é que é trabalhar numa ONG? 
PC – Não é trabalhar na ONG que é absorvente. Normalmente nas ONG´s em Moçambique trabalha-se mais do que se, por exemplo se poderia trabalhar se se estivesse no estado, mas é a urgência do tipo de trabalho que se faz. 

AM – Explique um bocadinho, o que é que faz lá? 

PC – É assim, trabalho num programa de promoção da mulher. Promoção da mulher o que significa? Tem várias componentes, uma delas que é a mundaça de consciências, a mudança de comportamento, que é a coisa mais difícil, porque é preciso desenhar programas de educação pública, pôr gente no terreno, e numa sociedade onde não existe rádio para todos, a televisão não chega a todos e a maior parte das pessoas não sabe ler, a mudança de consciência de vez em quando te de ser porta a porta, ou em reuniões pequenas. Por outro lado também, trabalhar para a promoção da mulher significa programas. 

AM – Esses programas não vêm todos das Nações Unidas. São vocês que fazem o trabalho de campo que têm que organizar esses programas? 

PC – Os programas normalmente, programas de desenvolvimento em qualquer parte do mundo são da responsabilidade do estado. Então, as nações unidas financiam o estado para elaboração de programas que tenham em perspectiva a condição da mulher. É assim... às vezes... A lei diz que homens e mulheres têm direitos iguais, não é? Mas, quando vamos ao acesso à educação, às vezes as condições das mulheres são diferentes. Por exemplo, no grau pré-universitário, no grau universitário, as mulheres já são adultas, e algumas são mães, e para poder ir frequentar um curso de promoção, tem que ter um lugar onde deixar os filhos, tem que ter condições mínimas, básicas, para que a mulher possa estudar tendo em conta a realidade dela ter um ou dois filhos. E, por exemplo, nas escolas de nível médio, ou nos cursos de formação profissional, há poucas mulheres, exatamente porque são adultas, têm filhos e não têm onde deixar. Podiam deixar com a mãe, mas deixar com a mãe significa ter dinheiro para comprar o leite, quando é uma criança ainda lactente. Então, a criança tem de ir com a mãe, mas se vai com a mãe onde é que fica?Então são estas discussões que nós temos, com os diferentes departamentos do governo, que têm os seus especialistas, mas promovemos este tipo de debates e criamos esta influência para que os programas sejam mais adaptados. Voltando ainda ao exemplo da educação, portanto a característica dos nossos países africanas e das zonas rurais é a dispersão da população, vivem em zonas distantes. Temos uma escola a dez kms por exemplo, e não há meio de transporte. Rapazes e raparigas saem, fazem dez kms a pé para ir à escola. Mas quando estudam no período da manhã, a coisa é mais facilitada, porque saem de manhã cedo, vão às aulas, e é preciso voltar os 10 kms. Mas quando é o turno da tarde, há o problema para as raparigas, por causa dos raptos, por causa dos assaltos. 

AM – E há muito disso? 

PC –Há muito disso? Não, mas a ocasião faz o ladrão. Então. Perante esta complexidade, o que é que um departamento do estado pode organizar quando pensa em fazer um plano para educação, das duas uma: ou colocar uma turma especial de raparigas que possam entrar às 8h e terminar as aulas à 1 hora, para estarem seguras, ou então é preciso criar um novo programa de electrificação e de transportes públicos, etc, porque está provado que vontade dos pais de levarem as mulheres à escola existem, vontade do governo existe, mas a forma como as coisas vinham sendo organizadas até hoje.... 

AM – Não funcionam, porque não estão adaptadas... 

PC – Ya, tinham-se esquecido de que os homens e mulheres não são, embora iguais, homem é homem e mulher é mulher. E então, é um trabalho muito absorvente... 

AM - Descreva-me um dia da sua vida. 

PC – Ya. Um dia de trabalho meu é assim: Eu chego, por exemplo uma segunda feira, eu chego ao trabalho e olho para o plano mensal, o que é que nós temos que fazer? O que temos de fazer é, por exemplo, organizar uma discussão com o director da educação sobre a situação das raparigas da escola na região, sei lá, numa região qualquer. Então, para se ter esse diálogo, é preciso reunir uma série de elementos: quais são os dados estatísticos, qual é a situação real dae scola, quantas mulheres existem, quantos homens existem. Então, eu funciono como uma espécie de elemento de coordenação em todo este movimento. E no fim, quando temos tudo organizado vamos, sentamo-nos com a instituição respectiva, trocamos impressões e, por vezes, o director diz, Olha, eu realmente já pensei nisso, mas o meu problema é que falta-me isto e aquilo. A minha tarefa é regressar, pegar naquilo que foram ideias do líder de uma determinada área, reprogramar de acordo com os pontos existentes para a realização de qualquer coisa. Se o assunto me supera, eu transfiro a questão para os meus superiores que estão a trabalhar em Maputo. A realidade é esta, a necessidade é esta, pretende-se caminhar neste sentido. É por isso que para mim.... (suspira) Às vezes nós temos que falar da lei de terra, ou da lei das associações ou da lei da família para as comunidades e, pronto, são questões legais, quem entende de leis e artigos e constituição são os juristas. É preciso encontrar juristas à altura que entendam o assunto, definir termos de referência, fazer os contratos, sair para o terreno, coordenar com as lideranças locais ou as organizações locais, a organização deste evento. E quando chega a altura do evento de se realizar, eu vou com estes especialistas ao terreno controlar a quantidade de trabalho, se de facto, o que foi acordado, aquilo que é a necessidade das pessoas está a ser tratado conforme aquilo que foi previsto ou não, então tenho estado constantemente a deslocar-me... 

AM – Aí estão as viagens “malucas” que a Paulina faz e referiu na conferência... 

PC – (risos) Sim de vez em quando desapareço, sim, fico assim 3, 4, 5 dias. Por exemplo, nas últimas três semanas, nós fizémos um trabalho interessante com um grupo de técnicos de planificação. Então o trabalho que nós tínhamos há duas semanas atrás foi um diálogo, junto dos planificadores, à volta da questão da pobreza e da questão da mulher. Porque a política do governo diz: “é preciso aliviar a pobreza e é preciso promover a mulher.” Para alguém que planifica na área da educação, na área da agricultura, na área da saúde, o que é que isso significa? Quais são as actividades específicas que vão ser feitas e quais são os indicadores específicos para que no fim do ano se possa dizer, foram promovidas, por exemplo, 10 mulheres, e foram promovidas na área x e gastou-se tanto. Então, fizémos uma sessão de trabalho com, acho que tínhamos à nossa volta 4 especialistas, uns especializados em assuntos demográficos, outro em assuntos estatísticos, e outros com especializações territoriais em agricultura. Então, ok, vocês vão ter, assim, com exemplos práticos, por exemplo, 5 mil dólares e vais fazer formação da mulher e da pobreza, e vais utilizar estes indicadores. Então é mais ou menos isto. 

AM – Este tipo de trabalho implica muita responsabilidade e muita visão, não é, porque é preciso negociar o dinheiro de acordo com as pessoas, as condições, etc. A Paulina é feliz a fazer o que faz? 

PC – Eu gosto muito de fazer isso, porque sinto que de certa maneira eu aprendo. Eu não sou especialista em área nenhuma. O meu trabalho é coordenar todo este movimento, todos estes encontros, buscar os especializados para cada área e fazer uma coordenação a nível de plano, o que é que se vai fazer primeiro, o que é que se vai fazer depois, quem se vai buscar, com quem se deve dialogar, que tipo de relatório vou mandar, etc. E a trabalhar com diferentes organizações, com diferentes departamentos do governo, eu ganhei assim um conhecimento da província, das instituições muito grande, e não só, estou em constante relacionamento com diferentes pessoas, diferentes idades... 

AM - E uma experiência humana muito rica, não é? 

PC - E por exemplo, às vezes dá muito prazer ver que na escola onde só havia duas meninas, dois anos depois já havia 40, só que dessas 40, começam com 40 e depois vão desistindo, mas há umas 10 que sobrevivem... e é sempre uma vitória. Não sei... gosto de fazer isso, mas é muito absorvente. Por vezes me perco, realmente. 

AM – Paulina, na sua juventude, foi uma activista Frelimo? 

PC – Fui, fui. 

AM – Qual foi a lição mais valiosa que aprendeu neste período, como activista da Frelimo? O que é que ganhou dessa época? 

PC – Eu ganhei a coragem e a ousadia. Raras vezes tenho medo de enfrentar qualquer problema, qualquer indivíduo, ou qualquer dificuldade, quem quer que seja. Se for necessário, por exemplo, confrontar o presidente da república, vou. Mas acima de tudo, aprendi como confrontar. Aliás, nem é bem confrontar, como negociar. Isso foi algo que eu aprendi desses tempos. Hoje, já adulta, não sou pessoa para vacilar perante uma dificuldade. Claro que há momentos de choque, primeiro é o choque, depois é o choro, mas quando eu me levanto, posso perder a batalha mas eu vou à guerra, e foi dessa altura que eu aprendi isso. 

AM – Considera que a sua escrita entra em confronto com a forma como Moçambique está a ser governado actualmente? 

PC - Às vezes. Porque... pronto, os governantes da Frelimo ontem foram do movimento de libertação. Alguns, não todos, mas alguns, estão a pisar o risco, o mesmo que condenaram o tempo que passou. Então... n’O Sétimo Juramento, de vez em quando eu toco nestes aspectos, como quem diz, ontem disseste que não podia ser assim e agora estás a fazer o mesmo. Nunca ninguém se queixou, mas eu sei que me observam. O que é que ela vai escrever agora? (Risos) Eu sei que eles me observam, porque... pronto, de vez em quando sinto que alguns deles, ou alguns de nós estamos a trair a nossa causa. 

AM – A trair? 

PC – A trair, trair. Porque... a grande utopia era acabar com o imperialismo, com o capitalismo, e muitos desses que ontem disseram abaixo, têm mais capital que alguns dos colonos que connosco estiveram. E pronto, de vez em quando eu sinto que fizemos a guerra mas alguns substituiram, e substituindo por vezes de forma grotesca, o regime que queríamos eliminar ou derrubar. 

AM – Acha que há liberdade de expressão em Moçambique? Disse uma vez numa entrevista que escrever era accionar uma bomba sobre a sua cabeça. Sente isso ainda? Será que a sua criatividade é ameaçada pelo medo? 

PC –Eu sinto medo, não vou negar. Sinto medo, e é por essa razão que, quando chega a altura da edição de um livro eu fico num stress violento e.... sou capaz de não dormir, noites e noites, perco peso, sim, porque eu não sei o que é que vai acontecer. Embora no nosso país ainda não tenha sido deportado ou preso quem quer que seja só por ter escrto, pelo menos depois da independência, ainda não. Mas isso não significa que isso não possa acontecer, pela primeira vez. Por isso, às vezes temos que medir o que escrevemos, o que dizemos, não é tão simples assim. 

AM – É complicado. Paulina, gostaria de voltar outra vez à questão da publicação dos seus livros. Na Caminho, quem é que escolhe o design, as imagens da capa, etc? 

PC – Boa pergunta. Nunca perguntei ao editor! 

AM – Não? 

PC – Nunca tenho tempo! Eu faço o meu trabalho, discutimos ainda o texto, e o resto eu deixo por conta deles. Eles é que fazem. Eu nunca disse nem sim nem não, não porque não pudesse, mas porque quando chega a altura de fazer a versão final do livro, eu estou em algum canto a fazer qualquer outra coisa. Às vezes sou eu mesma que dou liberdade e digo, olha, a minha parte já está, vocês agora façam o resto. Contudo, quando é um livro a ser editado noutros países que não sejam Portugal, o editor tem o cuidado de esperar que eu volte lá das minhas andanças, para eu meter alguma opinião após o texto. Mas eu nunca disse que não, porque eu não percebo nada... 

AM – E os glossários? Como é que é? 

PC – Não, os glossários quem os faz sou eu. E a razão é simples. Algumas palavras só eu é que sei onde as fui buscar, e só eu é que sei o significado que elas têm. Vêm do changane ou vêm do chope, e a Caminho não tem uma área especializada nas línguas bantu, e normalmente sou eu quem faz. Depois é interessante que os glossário, cada escritor faz o seu glossário, porque não temos ainda gramáticas e dicionários elaborados nas nossas línguas. Deixar de escrever um livro nas nossas línguas porque não temos um dicionário. Existem dicionários pequenos que foram produzidos por missionários, mas muito pequenos, alguns já muito ultrapassados... e as palavras foram evoluindo... 

AM – Paulina, o que é que acha que os seus livros trazem de novo ao público português? 

PC – Boa pergunta... De novo talvez nada... 

AM – Nada? 

PC – Eu sei que os portugueses gostam dos meus livros. Mas talvez o outro lado histórico, porque eu acredito que eu estou a escrever com alguns assuntos parecidos com aqueles que os portugueses escrevem, mas por exemplo, eu sinto que ler a imagem de áfrica escrita por um africano é diferente da imagem de áfrica escrita por um europeu. Isso talvez tenha alguma novidade. 

AM – Como é que acha que os portugueses a vêm? Acha que eles exotizam os seus livros? Por exemplo, a feitiçaria e o Sétimo Juramento. Como é que estes temas são lidos pelos portugueses? 

PC – Alguns dizem, Ah! Que coisa mais estranha. Outros dizem, bom, já ouvimos falar destas crenças. O assunto não é novo. Eles sabem que existe a crença sobre a feitiçaria, e há muitos livros que foram escritos por antropólogos que falam dos mitos das crenças, temos o caso dos usos e custumes dos Bantus, que foi escrito por Jenneut, mas é um europeu a falar de África, não é um africano a falar da sua própria realidade. É a única diferença que talvez possa existir. 

AM – Costuma vir a Portugal muitas vezes? 

PC – Sim, bastantes. Só que nos últimos 4 anos, tenho ido poucas vezes. 

AM – Como é que se sente em Portugal? 

PC – Muito bem. É o lugar onde mais à vontade me sinto. Não me sinto estrangeira em Portugal. Eles vão continuar a pedir-me um visto, passaporte, essas coisas todas. Eu, estrangeira em Portugal? Não, não me sinto, embora a constituição diga que eu sou. (risos) 

AM – Pois, mas a constituição diz muitas coisas que não são... Então, os seus romances estão traduzidos em alemão, em francês, em espanhol.... 

PC – Em italiano e estão no Brasil. 

AM – E no Brasil. Está mais alguma tradução em andamento? 

PC – Antes de se ter um contrato é difícil dizer-se, mas eu acredito que é possível que haja uma tradução para inglês... na África do sul e em Inglaterra. África do Sul há uma editora que se interessou em editar os Ventos do Apocalipse. Agora, em Inglaterra há uma editora bem pequenina que editou também o Mia Couto, que está interessada em editar o Niketche. Mas não tenho ainda nada de muito concreto. 

AM – As pessoas reconhecem a Paulina na rua? 

PC – Sim. O meu maior dilema, sabe qual é? Se eu quero ir ao mercado, a pé, quase que nunca chego. Porque, encontro este, pára, Oi, tudo bem, porque não sei quê naão sei quantos, dou mais dois passos, e páro.... portanto, não é propriamente um assalto, é uma saudação. 

AM – É uma saudação, exactamente. Paulina, ao ler os seus livros, percebemos que gosta de escrever sobre temas que lhe permitem mostrar como é possível viver à margem de comportamentos convencionais, comportamentos e mentalidades padrão. Gosta de mostrar que existem outras formas de olhar para o mundo. Já escreveu sobre poligamia, monogamia, feitiçaria, amor, religião Que outros temas gostaria de abordar? 

PC – Gostaria de abordar o racismo. Mas, ainda não está muito maduro o texto. Mas não o racismo tradicional, porque há um racismo dos brancos, o tradicional, que são os brancos que não gostam dos pretos. Mas o racismo, nem sei, é racismo sim, o racismo entre as pessoas pretas e as pessoas com sangue preto. Não sei. Era racismo que eu ia tratar, talvez não seja o melhor termo. Talvez falar um pouco da miscigenação, e os conflitos da miscigenação. Ya, porque tentei trabalhar nisso, mas é muito difícil, dizer a palavra certa, para não magoar um, para não magoar outro... 

AM – É, deve ser muito complicado. 

PC – Ya, eu vou dar um exemplo para ficarmos mais claros. O centro da história é uma mulher negra que tem um primeiro marido negro, e tem 2 filhos negros, depois se casa com um branco e tem filhos mestiços. Separa-se dos dois maridos e fica com quatro filhos. A relação entre a mãe e os filhos negros e mestiços, essa é o tema da minha história. 

AM – É muito interessante. 

PC – Os brancos aparecem porque evidentemente os brancos têm que aparecer, para dar raiz, para criar a raiz destes filhos. Mas não é dos brancos que eu trato. É de uma relação muito íntima, portanto, como é que é o mundo entre raças vivendo entre quatro paredes. 

AM – Este é um problema em Moçambique? 

PC – Não em todo o país mas onde eu trabalho, na Zambézia, é um lugar com fortes ligações com outras raças, a presença portuguesa foi muito forte na Zambésia e houve uma grande miscigenação, enorme mesmo. Então, as relações humanas entre os mestiços e os negros são muito complicadas. E é sobre isso que eu estou a tentar trabalhar, não sei se vou conseguir... 

AM – Vai conseguir com certeza. 

PC – Mas não é o mestiço, não é a voz do mestiço que segrega, é a mãe negra que prefere o mestiço e despreza o filho negro. 

AM – A mãe negra prefere o mestiço? 

PC – Exactamente. Porque está mais perto do poder, que herdou as propriedades do seu pai que foi para Portugal em 75, e porque o seu estatuto social e económico sobe com o filho mulato e não com o filho preto. 

AM – Continua a ser assim? 

PC – Exacto. Mas não sei se vou conseguir. É muito complicado. E está tudo muito à espera, o que é que a Paulina vai escrever (risos). Mas é racismo, não deixa de ser racismo. 

AM – É. Como é que surgiu a escrita de O Sétimo Juramento? 

PC – Eu acho que é resultado das minhas viagens. Não só a geração dos governantes, a actual geração dos governantes, é uma geração que vem do campo, porque até 1975 o poder estava com os portugueses e alguns assimilados que não eram urbanos, os assimilados nunca foram urbanos, foram peri-urbanos, e a maioria são os camponeses. Então, a nossa revolução foi feita por camponeses, alguns dos quais chegaram ao topo do poder. Ainda não houve tempo para exorcisar os espinhos interiores, existentes ou não, fantásticos ou imaginários. Então, nós temos uma situação em que temos um líder, formado não sei em que escola, mas que tem uma raiz no campo. E há um conflito interior entre o mundo que o absorveu, depois de crescer e o que abandonou. E o comportamento desses indivíduos na gestão dos dinheiros públicos, na gestão do dia-a-dia isto não aparece nada, mas é sério, para mim é, porque o indivíduo, porque teve uma educação europeia, estou na América ou na França, volta e diz que tudo é obscurantismo, vamos quebrar tudo, mas quando chega a hora crítica, começa-se a lembrar das suas raizes, e começa a busca. Ah, se calhar não tive sorte porque há muito que não vou ver a campa dos meus antepassados. Se calhar tive acidente porque não fiz a cerimónia de não sei quê, de não sei quantos. Então, este indivíduo entra num conflito. A questão da gestão dos bens públicos para mim, portanto, o líder africano que hoje é considerado um indivíduo corrupto, é muito fácil colocar uma etiqueta sobre alguém como um produto. Mas o que é que vai, o que é que faz dele este ser? O que eu sinto é que, não sei nos outros países, mas em Moçambique nós ainda não dialogámos com as nossas consciências, sobre aquilo que nós somos e aquilo que queremos ser. Perdemos o nosso melhor tempo e a nossa melhor energia, quer dizer, fazemos da nossa mente um palco de conflito e não um palco de harmonia. Um palco de conflito, porque um indivíduo que foi criado no meio de crenças mais bizarras, mais extraordinárias, de um momento para o outro diz que já não quer saber disto, é outra coisa. Assim, de um momento para o outro. E passado algum tempo, eh pá, não, acho que me enganei, deixa-me voltar, então está sempre neste ir e vir, ir e vir. E onde é que fica o espaço da edificação de uma identidade, de uma personalidade daquele indivíduo simples, justo, honesto, trabalhador, que tem uma linha única de pensamento para construir algo? Então, eu fico, por vezes, triste quando vejo que os próprios africanos não conseguem se auto-retratar. Por exemplo, o gestor da fábrica do Sétimo Juramento. 

AM - O David? 

PC – Ya, aquilo, o comportamento do David é típico destes indivíduos. Porque diz, esse indivíduo confia numa força oculta que nem sabe se existe ou não existe. Há um problema, no lugar de pensar, de fazer uma auto-reflexão, uma auto-crítica, o que é que eu fiz de bom, o que é que eu não fiz, onde está a minha capacidade, onde está a minha limitação, não, a primeira coisa é pensar na sorte, no azar, e no feitiço ou em algo relacionado com o obscuro. 

AM – É nesse momento que aparecem os conflitos grandes, a incompetência, e a corrupção. 

PC – Numa situação destas, muitos africanos recorrem aos princípios do mundo, à lógica e ao irracional, portanto o indivíduo não se encontra. 

AM – Mas se calhar é preciso essa busca em dois mundos diferentes, porque Moçambique é assim, não é, esses dois mundos fazem parte de Moçambique. Então, como fazer para sair deste enclave, como procurar a harmonia entre estes dois mundos que não se encontram? 

PC – Que se encontram. 

AM – Encontram? 

PC – Existem muitos pontos de intersecção. E são esses pontos que se devem procurar. Ora, nós herdámos uma cultura europeia, nós herdámos uma religião europeia, os padres estão toda a hora a dizer, não, não, não se pode pensar nisso, isso é uma heresia, isso são mitos, isso não existe. Claro, não existe, porque nunca ninguém provou que existe. Mas existe a crença. 

AM – Mas existe.... 

PC – Existe a crença. No subconsciente de casa um, esse problema existe. Então, é preciso descobrir esse assunto, por esta razão que eu achei que deveria tocar nesses assuntos. Confesso que tudo isso não foi muito bem aceite ao princípio. 

AM - Em Moçambique... 

PC – Houve muitos portugueses a perguntar, porquê, porquê, mas com o tempo, as pessoas foram compreendendo a importância do diálogo com as nossas raizes. Não foi um trabalho fácil também, porque tudo o que havia sobre feitiçaria, sobre crenças, foi escrito por europeus. Não sei se fui feliz mas, eu acho que em nenhum momento eu disse que a feitiçaria existe. Eu acho que não, não é esse o meu objectivo, nem se é verdade nem se é mentira. Eu ponho os assuntos tal como me é informado, ou tal como tenho algum conhecimento. Aquele livro não tem muita fantasia, talvez a trama, na trama eu tenha metido alguma colher, mas há uma parte dos reais que ali estão, são... foram ouvidas diferentes pessoas, umas que dizem que eu fui enfeitçado e que depois fui ao curandeiro, falei com vários curandeiros, que me disseram sim, nós fazemos isto, fazemos aquilo... 

AM – Então foi fazer mesmo alguma investigação... 

PC – Sim, para entender alguns fenómenos. Mas eu não chamaria investigação, eu fiz várias conversas, com diferentes pessoas e tentei reconstruir a história. Agora, o alcance que a história tem, que o livro tem, isso foi algo que é um bocado difícil de dizer, mas julgo que é uma contribuição para a compreensão de determinados fenómenos, ou melhor, dou algumas pistas para quem se interessar em perceber o assunto. Porque é sério. Se for a ligar a televisão de Moçambique, não passa uma semana sem que haja um caso de uma mulher que foi assassinada por espíritos, não passa uma semana. Houve um caso muito estranho, ai meu Deus aquele caso, de uma menina que é violada sexualmente pelo pai, porque ele, o pai, acredita que cada vez que mantém relações sexuais com a própria filha, o negócio na sua loja vai melhorando. Então, começou a abusar da menina, não se sabe exactamente quando, mas quando era pequena, antes ainda de começar a menstruar. A mãe só tomou conhecimento do caso quando a menina já tinha 16 anos. Um pouco antes de vir para aqui, presenciei um funeral que me magoou tanto. Uma menina de 13 anos se suicida. E todo o mundo se preocupou saber porque é que a menina se suicidou. Tinha algum namorado? Não, nunca. Tinha algum problema familiar com os pais? Não, nunca teve nenhum problema. Era a moça mais educada, mais estudiosa, mais tranquila, nem sequer amigos tinha. Então eu perguntei, qual foi a razão deste suicídio? Ao longo da conversa começou-se a descortinar uma série de verdades. A menina tinha começado a ser sexualmente violada pelo pai desde os 7 anos de idade. Dos 7 aos 13, ela não resistiu, morreu. 

AM – Que violência... 

PC – Portanto a crença existe. O feiticeiro diz, olha, viola a sua filha, que o dinheiro vai chover na sua casa. E estão aí vítimas, dia após dias. Agora, se existe ou não, isso não é um problema meu... 

AM – Essa não é a questão. 

PC – Não é essa a questão. E é importante falar sobre isso. 

AM – Quem são Leoncina dos Muchangos e a Alcina de Abreu a quem dedica Niketche? 

PC –São minhas amigas. (risos) Com quem discuto algumas parvoices de vez em quando...(risos) A gente ria-se, à medida que eu escrevia o livro, a gente ria-se... 

AM – Ah, então discutiu este livro com as suas amigas... 

PC – O livro como tal não, mas alguns assuntos, porque nem toda a gente sabia que eu estava a escrever um livro, e então eu ia falando alguns temas com elas e discutiamos. 

AM - Lídia Jorge, numa entrevista a Ana Sousa Dias, diz que a experiência terrível que viveu em África, como mulher de um oficial, foi tão forte e perturbante que durante muito tempo não foi verbalizada. Mais tarde, finalmente conseguiu escrever sobre essa experiência, produzindo A Costa dos Murmúrios. Sentiu algo semelhante em algum momento da sua vida? 

PC – Sim. Eu acho que o que eu escrevo nos meus livros não é tudo o que eu vi. Eu tenho que seleccionar algumas coisas, aquelas que podem ser ouvidas. Por exemplo, em Ventos do Apocalipse, eu vi massacres em directo. Já estive em situações de massacre que eu não saberia se viveria se morreria. E vi outras coisas tão macabras que não merecem ser ditas. Foi quando eu aprendi que a verdade tem limites, ou a verbalização de uma verdade tem limites. Tem, não se pode dizer tudo. Por exemplo, vou dizer isso que se passou há tantos anos. Vi um soldado a cortar a cabeça de alguém, a cortar! Pegou no pobre, pôs num tronco, pegou num machado e cortou na minha frente. Vi. Era tempo de guerra. Pude ver coisas que se fazem durante uma guerra. Mas escrever isso para quê? Para quem? Quer dizer, há coisas que, quer dizer, existem alguns actos humanos que, colocados num pedaço de papel, desumanizam toda a humanidade. Então eu digo: vou escrever isto para quê? Falando de feitiçaria, hoje fala-se muito disto do tráfego dos órgãos humanos, fala-se... por exemplo, a televisão há dias em Moçambique falou do caso de necromantes, que nós temos necromantes que, cuja tarefa é ir ao cemitério remover cadáveres, não sei porquê. Existem canibais. Canibalismo eu não vi. Mas eu vi uma sessão de necromância, é qualquer coisa que não tem interesse, quer dizer, eu não vou dizer a ninguém metade daquilo que eu vi. Portanto, posso dizer que alguém assassinou o outro, e acabou aí. Agora dizer todos os requintes, para quê? Então, eu acho que entendo um pouco a Lídia Jorge quando diz que ficou tão traumatizada que não pode dizer. Há coisas que ela sente que deve guardar para ela. Porque na verdade não se deve dizer tudo. Há coisas que ela sente que deve guardar para ela, porque na verdade não se deve dizer tudo. Dizer tudo para quê? O caso que saiu na televisão é de um indivíduo que, para além de ir buscar, porque ele vai busc os cadáveres prara tirar os ossos, fazer bruxedos e essas porcarias todas, é como se fosse pouco, tira os nacos, faz carne seca e cozinha. (risos) Cozinhar uma pessoa recém morta já é bizarro. Agora, um cadáver que foi enterrado e ainda vai comer, ah não! E o tipo apareceu a falar! A dizer que sim, eu faço isso, já faço há bastante tempo, e não faço com todos, só faço com cadáveres de criança, que é mais para dar... e eu desliguei a televisão. Pronto, são dessas coisas. Bom, isso no dia a dia, sem guerra nem nada, agora a Lídia Jorge que vive numa altura de guerra, o que é que ela terá visto? 

AM – Gostou de conhecer a Lídia Jorge? 

PC – Eu achei uma pessoa interessante. Fui a uma palestra dela, acho que foi na associação dos escritores, e fui a uma outra palestra que ela deu no centro cultural português, na altura eu era muito mais moça, enfim, ainda tinha o sonho de publicar um livro... 

AM –Ainda não tinha publicado nenhum livro? 

PC – Não, não. E acho que a encontrei num congresso em Portugal. Mas pronto, eu olhava para ela como um ser muito mais alto, que ela é, em termos de trabalho uma pessoa muito mais alta e mais experiente. 

AM – Como é que reage à palavra pós-colonial? 

PC – Eu preferia que se falasse no período da independência. 

AM – Porquê? 

PC – Porque a palavra colonial traz consigo, para mim, muitas memórias de coisas que eu não gostaria de recordar. E sermos tratados como pós-colonial, ya, é uma palavra necessária, mas eu pessoalmente não gosto dela. Eu prefiro dizer depois da independência, não pós-colonial. 

AM – Mas onde é que esta expressão nos deixa em termos dos novos colonialismos que se revelam no pós-independência? Há uma real independência ou um colonialismo mental? 

PC – Nós tivémos um processo de libertação da terra, bem sucedido, mas o processo de libertação da mente, aí ainda está em processo. Portanto o colonialismo para mim mudou de cor, mudou de raça e mudou de lugar. Porque o colonizador era o branco, era o português, mas o colonialismo ficou connosco. Colonialistas somos nós mesmos agora. E, não sei... não sei, eu acho que não estou em condições de aprofundar muito esta questão neste momento, mas a minha posição é que o processo de descolonização mental ainda não foi concluido... nem sei se foi começado. Por exemplo, hoje, a palavra nova que se usa é a corrupção. Mas eu não sei até que ponto a corrupção de que hoje se fala não está ligada ao nosso colonialismo. Eu estou-me a lembrar dos colonialistas da minha terra que chegavam, não tinham nada, e arranjavam um negócio, punham os nativos a trabalhar para eles, e enriqueciam em dois dias, compravam carros, oportunidades, violavam mulheres, faziam o que eles queriam. Hoje, vejo indivíduos que, do nada, de repente têm bons carros, utilizam bens públicos de qualquer maneira, não se lembram sequer de que os outros são tanto seres humanos como eles. Então, para mim, existe uma certa relação entre o modelo do colonizador europeu e o corrupto. 

AM – O corrupto moçambicano? 

PC – Sim. Talvez porque não podemos chamá-lo de colonialista, porque o colonialista ainda consideramos aquele que foi, e chamamos corrupto, mas em termos de actuação, encontro muitas semelhanças. Hoje tivémos uma belíssima apresentação sobre as diferenças em Angola, aquilo que foi apresentado sobre a atitude dos angolanos hoje com bons carros e outros que não têm onde comer nem dormir, não é muito diferente daquilo que os portugueses faziam. Então, o trabalho de libertação mental, onde está? Portanto, há os que ficam ricos e os outros cada vez mais pobres. 

AM – As antigas lógicas continuam a correr na actualidade... 

PC - Exacto. Nós, mesmo em termos de edifícios, gabinetes de trabalho, copiamos completamente o modelo colonial... e ainda superamos. Os gabinetes de trabalho de alguns de nós são impérios autênticos. 

AM – E como é que acha que se pode dar a volta a isto tudo, quer dizer, é uma pergunta complicada, mas é uma pergunta que é inevitável. 

PC – Não é tão complicada. Dar a volta não é tão simples como dar uma volta a pé, a um quarteirão. Mas é um processo que passa pelo diálogo, pela denúncia, pela negociação até, até chamar à razão algumas das pessoas que assim praticam. Mesmo aqueles que são pobres, aqueles que não têm nada, aqueles a quem o pão é usurpado, se calhar na mente deles, têm o sonho de serem, de substituirem os colonialistas. Se se pegar naquele indivíduo e se promove, é capaz de vir a fazer exactamente o mesmo que lhe faziam antes. Então, eu acho que é um processo que tem que envolver acima de tudo os governantes, mas os intelectuais devem ser os primeiros a despertar a consciência. 

AM - Há muitos intelectuais em Moçambique? 

PC – Não há muitos. Não, são muito poucos. São muito poucos mesmo, e as pessoas com a base, com uma base para serem bons intelectuais estão preocupados pela sobrevivência, pelo pão de cada dia que nos absorve, e temos muito pouco tempo para discutir o país, para construir a nação e para construir as relações humanas. Estamos preocupados ainda em satisfazer as necessidades mais básicas, a casa, o pão, a água. Eu acho que sim. Talvez, porque há coisas que estão a correr muito bem, pode ser que venha a surgir uma, assim, um grupo um pouco maior que possa discutir isso. 

AM - E também deve haver muitas pessoas que, tendo as condições saem do país, vão para outros sítios, outros países, trabalhar ou estudar, e depois acabam por ficar lá e não regressam a Moçambique. Eu conheci um moçambicano em Inglaterra que me dizia que estudar os livros da Paulina Chiziane não interessava, pois escrever sobre as mulheres é um luxo que não se deve sobrepor a realidades mais básicas. É esta a ideia que os moçambicanos têm na cabeça quando lêem Paulina Chiziane? O que é que tem a dizer sobre isto? 

PC – Eu não diria que sim nem que não, mas... pronto. Esse indivíduo tem o direito de ter a sua opinião, considerar primário ou secundário aquilo que na sua cabeça conta, para mim é pouco importante. Mas também existe um bom número de pessoas que considera que esses assuntos não merecem atenção. Mas talvez a falta de conhecimento da realidade faz com que as pessoas pensem que são donos da realidade que não possuem. Eu estou a falar de um país onde a maioria são mulheres. Portanto, com a saída de indivíduos pensantes, como esses, para fora do país e com a presença de outros indivíduos pensantes, como ele, a nível das capitais do país, ficamos com um país rural feito por mulheres. Portanto, o verdadeiro desenvolvimento de Moçambique está nas mãos das mulheres. A zona rural tem mais mulheres do que homens, porque os homens atravessam as fronteiras e vão, trabalham na África do Sul, no Zimbabwe, no Malawi, ou trabalham no centro da cidade. Mas é uma geração que fica no campo, nas mãos destas mulheres. Se nós não garantimos que elas tenham o mínimo para poder educar os filhos e fazer a magma social funcionar, o país jamais sairá do subdesenvolvimento. Eu acho que ... é falta de visão. Há indivíduos que aparentemente sabem muito, mas não sabem nada. Às vezes me confronto com eles, e “o quê? não, essas coisas aqui na minha aula não passam”. Recordo-me de um intelectual moçambicano com quem.... estivémos assim a dialogar um dia numa conferência e... chegámos... ou não chegámos a um bom acordo porque ele chega, começa a falar da bendita globalização, que eu ainda não sei muito bem o que é isso, a globalização, como algo divino ou como a nova religião, está a perceber, depois começa a falar dos estilos literários, para cima e para baixo, que deve ser assim, que não deve ser assado... É preciso reconhecer que tu estás numa terra que tem as suas características próprias. Fala de globalização, sim, tendo em conta esse teu país disperso, e talvez, antes de falar da globalização global, fala da globalização dentro da tua própria terra. É por aí que o pensamento começa. E começámos a ter assim uns.... alguns atritos e não chegámos a lugar nenhum. Mas acredita que há muita gente com bons diplomas que pensam que sabem o que não sabem, por isso (risos) 

AM – Eu fiquei muito chateada (risos) e pensei assim, um dia, quando falar com a Paulina, vou falar sobre isto. 

PC – Ya, há muita gente assim, eu conheço alguns. É gente que merece ser ignorada. Mas também há outra questão, que é a seguinte: normalmente são mais reconhecidas as pessoas, nos nossos países, são mais reconhecidas as pessoas que vêm com título académico, numa universidade de qualquer coisa, mas eu digo, em termos de conhecimento da realidade do meu país, eu sou especialista. Nem o presidente da república é capaz, ou, o presidente da república que, enfim, tentou de escolher os políticos e não sei que mais, pode me dizer “não” em relação a determinado assunto. Assuntos ligados às comunidades onde eu trabalho, eu tenho um conhecimento, sou um autoridade e tenho uma palavra. Mas, tudo faz parte de um processo, não, vamos ignorar isso que é melhor. Pronto está bem, há aqueles que dizem, mas eu nem sei o que é que essa gente vê, Paulina, Paulina a toda a hora, o que é que ela escreve? O que é que ela escreve? Ai é, achas que não presta? Tudo bem, é a tua opinião e pronto. E ficam aborrecidos, porque não é a opinião deles que conta. Deixa lá, não ligues. 

AM – (risos) Em relação à constante categorização da literatura de acordo com o local de onde ela vem, acha que um projecto que compare literatura africana e portuguesa poderá de certa forma abalar estes processos de categorização que são responsáveis pela hierarquização de literatura? 

PC – Por exemplo, o que está a dizer agora, a pessoa diz, não, não vale a pena (ler Paulina) exactamente porque eu não venho de uma academia. Nós já temos esses preconceitos e... nós herdámos muitos preconceitos dos portugueses. Agora, não sei, por mim não havia problema, agora, se calhar o problema seria contigo. Teu, porque tu vais fazer uma comparação de uma Lídia Jorge, canonizada, com alguém que vem do terceiro mundo. 

AM - É exactamente essa questão que eu quero tocar, porque... eu acho que há muito resistência em Portugal, ou melhor, os seus livros são muito lidos, e as pessoas vão conhecê-la e vão conhecer África cada vez mais através de si, mas quando se dá a comparação baseada em categorias hierárquicas, talvez se ocasione mais uma separação que uma aproximação, em termos literários depreciativos. Então talvez seja necessário uma aproximação entre livros, que não interessa tanto de onde vêm, são apenas livros que falam de temas muito importantes e realidades históricas que é preciso reunir e discutir um bocadinho mais... 

PC – Ya, mas como eu lhe disse inicialmente, eu venho de uma geração que tem essas dificuldades. Para eu me afirmar no meu país, no meu próprio país, eu tive que passar por várias provas. E ainda vou passar por tantas outras, portanto, para mim não me assusta. Eu sei que as pessoas... esse não é apenas um sentimento português, mesmo em Moçambique, portanto, embora seja interessante, é algo que ainda aparece marginal. Eu não estou preocupada. Eu vou fazendo o meu trabalho e só Deus é que sabe no que é que isso vai dar. Há uma música aqui (computador) que eu disse que é uma homenagem a uma cantora e dançarina moçambicana muito falada, é uma pessoa de raiz, nem sabe falar português, e acho que ela nem sabe escrever. Mas ela é uma mulher extraordinária, foi uma mulher extraordinária. Movimentou o país inteiro. A música dela era feita por todos, os espectáculos dela foram os maiores de todos os tempos, mas a elite nunca a aceitou. E ela morre de sida. O estado moçambicano nunca deu um grão de arroz, ou uma aspirina para cuidar da saúde dela. Acabou morrendo como uma cidadã anónima. A cúpula do país estava reunida em Nampula, numa reunião do partido para traçar as estratégias do governo, essas parvoíces que eles fazem. Marca-se a data do funeral, a verdade porém é que o país inteiro parou. Espontâneo! No dia do funeral daquela mulher, o país inteiro parou. Foi o maior funeral da história de Moçambique. Nem o presidente estava, nem os ministros. Tiveram que mobilizar polícias, as polícias mais próximas, todas estiveram a trabalhar porque aquilo foi uma coisa, que nem o Samora Machel, quando morreu, não teve um funeral igual. Quando o governo chegou aquilo foi uma coisa! Era o Chissano na altura como presidente, mandou assim uma mensagem para o viúvo, uma mensagem desenrascada de última hora, e aí o povo disse: sabemos escolher os nossos heróis. E essa lição ficou. O estado... não acredito que eles mudem de conduta, mas isso simplesmente mostra que existe um trabalho que é considerado um trabalho mais, e existe um trabalho que é considerado um trabalho de elite. Contudo, eu acredito que.... para mim não é muito importante um reconhecimento por pessoas preconceituosas, que também não escrevem para eles. O trabalho em si dirá, para onde vai, o espaço que vai ocupar. Senão teria desistido. A saída do Sétimo Juramento foi uma coisa.... foi terrível. O quê? Que livro? Falar de feitiçaria? Alguma vez isso foi alguma coisa? Olhei para eles e disse, bem, deixa estar, Deus é que sabe, deixa estar. A verdade é que o Sétimo Juramento é um dos livros mais lidos, e as pessoas dizem, ah, estão a ler esse livro, esse livro não tem interesse nenhum. Quanto mais dizem, o livro mais circula. São dessas coisas. Mas agora, eu penso por ti, estás a fazer uma carreira, os portugueses vão dizer, pois é, quem é essa miúda terrível... (risos) 
AM – (Risos) 
PC – Vê lá! A história mais fascinante de portugal, para mim, é a de Saramago. 

AM - Saramago? 

PC – Saramago foi sempre tratado como um marginalzinho, não é? (risos) Então pronto. Aí está, um caso, de repente.... eu ainda ouvi a reacção de alguns portugueses. Esperavam que fosse o Lobo Antunes, é verdade? 

AM – Sim, é uma relação de amor-ódio, aquela que os portugueses têm com Saramago. 

PC – Mas Portugal só tem a perder. 

AM – A escrita de Saramago é mesmo fascinante. Mas voltando à sua escrita, como é que acha que Portugal tem lidado com o seu passado colonial? Acha que a mente portuguesa também está colonizada? 

PC - Sim. À semelhança connosco, acho que Portugal ainda não teve tempo para reflectir sobre o seu passado. Na minha opinião, neste momento Portugal tem outras prioridades: a integração no mundo europeu, a luta pela afirmação como um povo, como um estado, e como um membro de uma união europeia, mas ainda não teve tempo para dialogar com o passado, mas também o passado é muito recente, e ainda as cicatrizes não estão curadas, não, as cicatrizes não, as feridas não estão cicatrizadas, pode ser essa uma das dificuldades para olhar para o passado e... dialogar com o passado, reconciliar-se com o passado. Mesmo nós em Moçambique, nós ainda temos as feridas abertas, alguns de nós, e ainda não olhámos para os portugueses, para Portugal, como um irmão, como um povo conmpanheiro. Estamos a começar, mas é um processo que vai levar tempo, mas precisamos de dialogar. 

AM - É muito importante esse espaço de diálogo. 

PC – Eu penso que sim, porque Portugal e Moçambique estão ligados para a história. Ainda estamos zangados um com o outro, mas eu acredito que a reconciliação virá. E tem que vir. É importante que venha. 

AM – De facto, passados estes séculos todos, os portugueses ainda continuam a escrever sobre África, ainda continuam a pensar em África, não conseguimos “entrar em harmonia”, mas Portugal continua a escrever sobre África. Já leu A Costa dos Murmúrios? 

PC – Já li faz bastante tempo, não me recordo muito, acho que foi um dos primeiros livros que li. Não tenho viva a história. 

AM – Não viu a adaptação do livro em filme? 

PC – Não. Eu ando muito desinformada. Só sei de coisas de campo (risos) 

AM – Obviamente, o que é o mais importante! (risos). Ontem, quando estávamos a falar, disse que havia um livro seu que iria ser transformado em filme. Poderia dizer algo mais sobre isto? 

PC – Sim, é o Niketche. Mas não... ainda nada está seguro, não posso falar disso. 

AM - E o seu próximo livro sobre racismo? 

PC – Uf! Eu fartei-me de fazer a revisão do livro. 

AM – Já está escrito? 

PC – Está quase, mas tenho que rever uma série de coisas, ainda não tive tempo, talvez quando me concentrar, fiz uma parte, mas falta muito, talvez no mês de Dezembro, porque agora... é altura de muitos relatórios anuais, não sei quê... muito trabalho, é o fecho do ano. Em Dezembro já estou mais folgada, nessa altura talvez faça alguma coisa. 

AM – Paulina, foi um prazer... muito grande. 

PC – (risos) Obrigada eu pelo interesse. 
AM – Estou muito agradecida por ter podido estar aqui a falar consigo. Obrigada. 

PC - E boa sorte!

Minneapolis,

Sexta-feira 

6 de Outubro de 2006 

Hotel Radisson

Quarto 835

"Porque o colonizador era o branco, era o português, mas o colonialismo ficou connosco. Colonialistas somos nós mesmos agora. "

Paulina Chiziane 

Paulina Chiziane

Telephone

T: 0044 (0)1392 724246